Dizem que a Lua depende do Sol. Não sabem de nada. Justo o contrário.
O astro-estrela percorre durante as madrugadas pelas distâncias do cosmos, deslizando atrás dela. E a Lua segue sua rota pela escuridão da noite. Quando o Sol está longe de encontrá-la, ela descansa plena e cheia na imensidão do céu. Sua graça ilumina o teto dos amantes, as marés se excitam com sua presença imponente, os lobos urram suas serenatas, as mulheres transpiram hormônios e choram inspiradas por sua beleza. Choram sim, lágrimas de prata, e transbordam formando poças-espelho para que o satélite seja visto refletido no chão, quando o pescoço rijo precisar descansar das horas inclinadas de contemplação.
Quando o sol está próximo de encontrá-la, a Lua discreta-se, esconde-se minguada, misteriosa, quieta, atrás da porta da noite. A estrelinha sapeca que fica ao lado dela, toma conta para que ele não apareça e a surpreenda fugidia. Mas porque a Lua foge do Sol? Ela não foge não. Sua sabedoria feminina sabe o caçador que reside no astro-macho: É preciso instigá-lo, mantê-lo vivo e para simplesmente mantê-lo. E ela brinca de esconde-esconde, corre pra lá e pra cá, deixando-o levemente raivoso (ou seria raioso?) Raivoso apenas o suficiente, para sair decidido atrás dela. Raivoso o suficiente para temperar com molho picante o próximo encontro. Enfim, ela se diverte sempre lívida e lúdica. Sempre feminina, sempre delicada, sempre bem humorada. Por isso o sol a tem como eterna namorada. Nesses momentos em que está longe do Sol, ela é a dona do seu espaço sideral. Escolhe o que vive, e o que vê. Sabe quem é, sabe o que quer.
Vez por outra eles se encontram de fato: a Lua sucumbe diante da incessante procura do Sol. Então eles se juntam, se clipam em eclipse. O sol lança cometas em sua direção formando novas crateras lunares. Fazem um amor extra-terráquio, um amor mega-galácteo, um amor universal.
A Terra, por sua vez, permanece sempre por aqui, voyerizando com seus telescópios todos, tentando aprender curiosa como um anjo da guarda, ao observar e cuidar dos amantes queridos por Deus. Quem sabe um dia a Terra aprende? O mais incrível é que ela é o mais vivo e belo de todos os planetas. Seus relevos, suas cores e encostas são únicos. Mas por quê a Terra é tão solitária? Por quê fica sempre a sonhar em receber um dia os anéis de Saturno como formal pedido de união? Por que ele não cruza o seu caminho, a sua rota? São tantos seus outros admiradores e todos permanecem tão distantes: Marte, Netuno, Plutão, Mercúrio, Júpiter...Talvez a Terra precise de terapia... Ela está toda partida numa solidão continental, a se debater pela busca do poder.
Voltando a Lua, dizem também, por fim, que ela é pequena, um dos menores astros do planetário. Mais uma vez estão enganados. A Lua, vista daqui, é brilhante pérola cheia, sempre maior em resplendor do que qualquer estrela. É ela que reina sempre absoluta no vasto céu do universo, de nexo puramente poético.
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