quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Maluquinho - Paula Wenke


O bonequinho não era um bonequinho, era um menino. E era maluquinho. E Rapunzel De Neve era maluquinha pelas maluquices do menino.
Ele não tinha uma panela na cabeça. Ele tinha um sino.
E assim, quando ele chegava, De Neve escutava literalemente as badaladas do Baladeiro Encantado.

Se o tal sino fosse uma corneta da Infantaria Real, seu badalar seria o toque de desrecolher, de desabrochar, de fluir a alegria da luz desde sempre incontida. Por isso que, quando ela o escutava, sempre sorria um sorriso de princesa "depois do beijo que faz acordar de sonos profundos".

O menino também não tinha olhos propriamente. Tinha dois faróis que enxergavam tudo verde: verde virgem, verde livre, verde puro, verde-oliva de semente de Oliveira que só precisa mesmo da esperança certeira que se faz transformar em fruta madura, doce e cheia de sumo. E ele sempre esperanciava tranqüilo, tranqüilão, perto das escadarias, mirando os arcos da Ponte do Rio Lapão, tomando sempre o seu néctar gasoso e enebriante.

Ele não tinha só uma voz, tinha um planeta dentro dele, cheio de pessoinhas que falavam através dele. A verdade é que os meninos não-maluquinhos têm também esses planetas internos, essas pessoinhas nas veias, mas só o ele era tão corajoso a ponto de deixar que elas se ocupassem dele por inteiro. O menino maluquinho era mega, e era galácteo. Cabiam galáxias dentro das suas mãozinhas tão branquinhas, quanto às mãos das De Neve. Cabia o universo dentro do coraçãozinho dele.
Mas ele era mesmo é esperto. Sabia que assim, a vida seria no final das contas, mais divertida.
E que por conviver com essas pessoinhas, não ficava tão sozinho, e acabava por fim, compreendendo e sentindo todas as dores e prazeres do mundo.

De Neve gostava de vê-lo por que sentia não precisar ver mais nada. Que TUDO estava ali, contido nele. E ela, com seus olhinhos escuros de buraco negro absorvia toda a luz que os faróis verdes distribuíam. Mas aí, quando seus olhinhos de breu se olhavam no espelho, a luz dos faróis verdes escapulia dos olhos dela, e quicava nesse mesmo espelho, seguindo seu caminho interminável pelos quatro cantos de cada canto do espaço. E do tempo. Mas o luzeiro verde deixava sim, De Neve mais iluminada.

Nessa história o espelho não reflete madrasta nenhuma. Isso é problema da Branca, sua prima.
E aqui é a De Neve quem faz as perguntas. Uma delas é mais ou menos assim:
"Meu Deus, ó meu Deus! Existe mais maluquinho do que o meu?" Daí, o tal espelho responde já em outro capítulo, só porque Rapunzel De Neve sempre capitula quando vem um soninho. Mas não por efeito da maçã cheia de veneno, mas pra parar, e sonhar com a Big Apple, ou com uma maçã do amor caramelada, ou até mesmo com a maçã do paraíso perdido.
Rapunzel também amadureceu num dia 13 de verão. Cortou suas tranças emaranhadas e assumiu seu sobrenome. Percebeu seus cachos dourados, leves, picotados. Na seqëncia, deixou que o sol agisse forte. Então foi ela própria que desceu da Torre. Rapunzel De Neve derreteu-se derramada... no papel.

Nenhum comentário: