quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Pânico - Paula Wenke



Pânico




Deu meia-noite, e as Cinderelas normais estão preocupadas com a carruagem que volta a virar abóbora. Como retornar a casa, se o metrô, à essa hora , também está fechado? Estão semi-descalças. Situação indevida para uma longa caminhada... E o príncipe encantado ainda vai demorar muito a perceber a dona do sapatinho de cristal. Vai ter que percorrer o mundo pra voltar a esse mesmo ponto. Homens... Bom, por isso ainda não vai acontecer aquela gentileza básica, que faz dizer: " Eu te deixo em casa, preciosa." Em resumo, preocupações normais, de Cinderelas normais, que já são, por si só ANORMAIS, por serem Cinderelas em pleno final de 2007.

Mas quem foge à total normalidade, quem é marginal por fluir pela margem esquerda e estreita, esquece mesmo os gatos-de-botas e sapatinhos transparentes, ou até os vermelhos porpurinados da Dorothy em O Mágico de Oz. Ao invés de tomar ansiolíticos, hábito próprio de moradores de grandes metrópoles, resolve dar uma passada no Zona Sul do sul de Ipanema pra ver o que o cosmos está conspirando. Daí Rapunzel faz um coque e desce serelepe a Torre do Barão. "Bóra-lá-mais-eu!"

Chegando ao térreo, ainda é preciso uma chave extra pro portão que já não funciona com um simples controle remoto. (Reparem, me assumo agora) E eu tenho lá esse chaveiro inteiro? Marcha-ré no palio preto, e vou de táxi . Simples e angelicamente assim. Boa dica pras Cinderelas: Táxi, crianças!

Chegando lá, no tal Zona Sul, um Bordeaux do Chateaux Trompette me corneteia uma promoção. Suas notas dizem assim: " Me leva por 14 reais". Respondo baixinho, dentro de mim, que o levo sim, lembrando que o 7 de setembro deles é no 14 de julho. Dia da Independência aqui, Dia da Bastilha lá. Bom, 14 da Bastilha mais 14 da promoção, mais sete da Independência dá 35. 3 mais 5 dá 8, o número do infinito, do Todo Atrativo que é Deus. Penso extasiada: "Esses podem ser números cabalísticos. Uau!" - embora eu não tenha a menor idéia do que seja realmente um número cabalístico. Um dia depois, descubro com um anjo ayurvédico que números cabalísticos são múltiplos de 7, e o 8 é o único que foge essa regra. O 3 também, da Santíssima Trindade. Bom, foi o que o anjo soprou.
O filósofo dizia: Só sei que nada sei. A pessoa aqui diria: Não sabia que sabia.

Então volto ao supermercado e me recordo somente do necessário: que já passei essa data em Paris, amontoada com "locais" pelas praças mais próximas da Torre Eiffel em busca do melhor ângulo, e que fiquei deslumbrada como eles, ao perceber com todos os meus sentidos, um show de pirotecnia característico de datas, de eventos tão especiais.
Tudo fluindo bem pela terceira margem esquerda do Rio Orla Ipanemense. IpaneIMENSA que chega até ao outro lado do mundo.

Já em casa, na torre do Barão, o Bordeaux Rouge me conecta às frases do filme de Baz Luhrmann, Moulin Rouge, por motivos obviamente avermelhados. O moço bonito que beijou a Nicole Kidman canta assim, rugindo como um leão pela dor da perda:
"I will foooooolow until my dying day". E o moinho vai soprando vento, vai soprando inspiração. Tudo lindo, muito lindo e romântico. E o Bordeux me leva mais ainda a bordar palavras. Sempre associando, entrelaçando pensamentos e imagens. Esse é o carma do canhoto que tem o lado direito do cérebro mais exigido.

Chego então até a uma aula de francês do meu mais querido professor parisiense, o apaixonado Jean Jacques. Num momento de devaneio e desvario, ele me explica um verbete em PORTUGUÊS. - adoro audaciosos - Ele diz: "A palavra pânico não tem o mesmo significado que medo exacerbado. PAN significa totalidade. Vide Pansexual, Pan-americano, Panorâmica!!! O todo é divino, é Deus. Como não paralisar diante de Deus, do Tudo?"
Sorrio pro meu Rio, e me entendo estagnada diante do enorme saco de farinha que encontrei, onde eu sou apenas um grão que faz parte dele...

Daí me vem um soninho simples, bossa-nova, típico de uma garota do bairro boêmio tom-viniciano.
Mas antes, ainda me visita o mesmo poetinha que diz em seu Soneto do Amor Total, algo mais ou menos assim:

Amo-te tanto meu amor. Não cante o humano coração com mais verdade. Amo-te como amiga e como amante, numa sempre diversa realidade. Amo-te afim de um calmo amor prestante, e te amo além presente na saudade.
Amo-te enfim com grande liberdade, dentro da eternidade e a cada instante. Amo-te como um BICHO simplesmente. De um amor sem mistério e sem virtude, com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito, e amiúde, é que um dia em teu corpo de repente...ahhhhh! Hei de morrer de amar, mais do que pude
.


Curioso... Nunca tive versos tão meus, cada palavra, cada sílaba. E exatamente para Ele. E não fui eu que escrevi. Mas os cravei aqui... Poesia...Rosa tão poderosa... Escondida, ali atrás. Na foto.

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